Setembro 6, 2008...2:39 pm

Elevador dos mortos

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“Posso lhe dizer uma coisa? Creio que você não reparou na Torre de Santa Justa, logo ali abaixo. É de propriedade da Companhia de bondes de Lisboa. Há um elevador nela e o elevador, na verdade, não vai a lugar nenhum. Leva as pessoas para o alto e elas, da plataforma, dão uma olhada na vista ao redor e então, mais uma vez, ele as traz de volta para baixo. De propriedade da companhia de bondes. Pois bem, um filme, John, pode fazer a mesma coisa. Ele leva você até o alto e o traz de volta para o mesmo lugar. Este é um dos motivos por que as pessoas choram no cinema”

 Esse é o John Berger em Aqui nos encontramos, um livro de contos, na falta de outra definição, porque mais parecem relatos do próprio autor. Berger é um crítico de arte inglês – escreveu sobre Picasso, cubismo e fotografia – mas também um grande romancista. Em 1972 ganhou o Booker Prize com o romance G. e este ano foi novamente indicado ao prêmio, ao lado de Salman Rushdie. Aqui nos encontramos é um livro curioso. No primeiro texto, o autor avisa: “os mortos nunca ficam onde são enterrados”. Em todos os relatos, um personagem, às vezes o próprio Berger, encontram mortos que vivem a zanzar pelas cidades. Velhos conhecidos, gente de quem têm saudade, amigos e parentes. No trecho acima o autor encontra a alma da mãe em Lisboa. Ela explica que o elevador da Torre de Santa Justa, ponto turístico e mirante da capital portuguesa, é um túnel entre o mundo dos vivos e dos mortos. Serve para transportar as almas do lado de lá até o lado de cá. Não é mórbido. Está mais para sarcástico.

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