Um romance para Biafra

Foto: C. Carwile

“Quando o Patrão voltou para casa, Ugwu estava sentado no chão da sala, com as costas na parede. Olanna comia uma fatia de bolo, num pires. Ainda estava com o vestido de noiva; a camisa de Okeoma for a bem dobrada e estava sobre uma poltrona. Os convidados haviam saído devagar, dizendo pouca coisa, as fisionomias sombreadas de culpa, como se constrangidos de terem deixado o reide aéreo arruinar o casamento.”

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu na Nigéria, é de etnia igbo e perdeu os avós na guerra de Biafra. Mora nos Estados Unidos desde a adolescência e foi lá que escreveu Meio sol amarelo (Companhia das Letras), publicado em 2006 nos países de língua inglesa e este ano por aqui. O romance segue a história de uma família de classe média durante a guerra que dividiu a Nigéria e instituiu a República de Biafra. Entre 1967 e 1970, milhares de igbos fugiram do território nigeriano e se instalaram em Biafra, que nunca foi reconhecida pelas grandes potências e amargou uma fome cujas imagens invadiram o mundo. A figura central do romance de Chimamanda é Ugwu, um menino pobre contratado por um professor universitário para cuidar dos afazeres domésticos. Meio sol amarelo fala das mazelas da África e suas guerras tribais, embora não seja este o foco de Chimamanda. A autora quer mostrar que há uma África além da propaganda do hemisfério norte, além das fotografias em preto e branco que ganham prêmios e dos relatos do repórter belga da CNN. Em Meio sol amarelo, duas irmãs gêmeas de família rica resolvem ficar em Biafra quando a guerra estoura. Os desastres das batalhas estão no livro, mas Chimamanda não faz sensacionalismo. O conflito de seus personagens está em manter a sanidade e uma certa moral em meio à degradação. E, sobretudo, a identidade. Vale como relato histórico. A autora tem 31 anos e não viveu a guerra, mas se ancorou nas narrativas da família e de amigos para construir Meio sol amarelo, um bom exemplar de literatura da África não-lusófona. Em julho último Chimamanda participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Teve como companhia no palco da festa os angolanos Pepetela e José Eduardo Agualusa e contou ao público que não acredita na missão política do escritor, embora não possa deixar de enxergar seus livros como romances fatalmente políticos. A autora escreveu também Purple hibiscus, inédito no Brasil, e agora participa de um livro para comemorar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A publicação terá textos de 12 autores, gente como Gabriel Garcia Marquez , Naguib Mahfouz (morto em 2006) e José Saramago. A foto acima é de Enugu, capital do estado de Enugu.

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2 Comentários

Arquivado em Romance

2 Respostas para “Um romance para Biafra

  1. LEO

    Só pra dizer que adoro ler o que escreves e que cada dia sou mais orgulhosa de ti Beijos.

  2. ASSIR

    Eu morei tres(03) anos na Nigéria (setembro de 1979 a setembro de 1982). Estava a trabalho. Muitos paises forneceram mão de obra para reconstrução das áreas que foram arrasadas pela guerra. Muito se falou a respeito desta guerra, mas (conforme me contaram diversos nigerianos),ninguém falou sobre como agiam os mercenários. O que eu soube é que estes recebiam, antecipadamente, para fornecerem armas e alimentos aos sitiados, porém, estas armas e alimentos eram jogados de paraquedas e os mercenários, também recebiam dos nigerianos que eram contra a Biafra; portanto soltavam os paraquedas de uma forma os sitiados recebiam em torno 30% do que esperavam, os outros 70% caiam fora da região. Eu morava em Enugu, capital de Anambra State, num local chamado New Haven.Enugu, na época em que eclodiu a guerra, possuia, de acôrdo com o que me contaram, um dos maiores zoológicos do mundo e os animais que lá viviam foram todos abatidos para servirem de alimentos.

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