A fase que nunca existiu

“Qualquer idiota pode pintar um quadro, mas só um homem sábio é capaz de vendê-lo” (Samuel Butler)

Foto: A ceia de Emaús

“A carta com o elegante cursivo de Bredius valia muito mais que o quadro que, por insistência de Boon, Han depositou no cofre do Crédit Lyonnais. A opinião de um único homem obrigaria todo o mundo da arte a aceitar sua falsificação como um Vermeer autêntico. O papel do crítico é crucial no mundo da arte – tanto hoje, no século 21, como da década de 1930. Apesar da proliferação de novos testes para autenticar velhos mestres – exames com infravermelho e ultravioleta, termoluminescência, espectrofotografia, datação por carbono e auto-radiografia -, ainda é o olho arguto do perito que faz a atribuição, pois, embora possam determinar a idade de uma tela, a composição dos pigmentos ou a natureza da base, os testes não conseguem determinar a diferença entre um Rembarndt e um Rubens.”

“A história, assim como a natureza, tem horror ao vácuo, e nesse terreno baldio floresceram fábulas e especulações. No capítulo sobre Vermeer de Noord – en Zuid-Nederlandsche schilderkunst de XVII eeuw, Hannema e van Schendel expunham uma teoria que inspiraria a Han sua maior falsificação. Diziam que, embora a produção de Vermeer fosse pequena, havia uma gritante disparidade de estilo e de tema entre Diana e suas companheiras, a primeira obra do mestre, e A leiteira seu primeiro trabalho maduro. No início da carreira, Vermeer pintou grandes quadros no estilo italiano, com as pinceladas largas e o característico chiaroscuro de Baburen e dos caravaggisti de Utrecht, muito diferentes da “serenidade de coração e nobreza de espírito” que caracterizavam a produção de sua maturidade. Nesse vazio, Hannema e van Schendel imaginaram um Vermeer desaparecido que um dia uniria as duas fases: afirmavam com segurança que, na juventude, o mestre de Delft pintara diversos quadros com temas religiosos, dos quais apenas sobrevivera um.”

 Han é Han van Meegeren, um pintor holandês que preferia criar telas à moda de Rembrandt e Rubens quando o mundo via nascer Picasso e o cubismo. Odiava arte moderna e venerava os mestres holandeses do século 16. Especialmente Jan Vermeer, o mestre de Delft. Han não conseguiu que a crítica dos anos 1930 olhasse seriamente para suas pinturas antiquadas, então decidiu ser Vermeer e inventou toda uma fase religiosa nunca pintada pelo mestre. Confeccionou três quadros falsos e conseguiu burlar o mercado e fazer com que suas pinturas fossem aceitas como autênticas. Durante quase uma década o mundo se deslumbrou com A ceia de Emaús e se surpreendeu com a fase “diferente” de um pintor misterioso e de produção escassa. Vermeer pintou menos de 90 quadros e Han tratou de aumentar a lista. Foi descoberto logo depois da Segunda Guerra e por pouco não vira o herói que salvou Vermeer dos nazistas. Sim, porque Han, um fascista que não escondia suas preferências, vendeu alguns dos quadros falsos para a elite nazista. E Frank Wynne, o autor do trecho acima, conta tudo em um texto saboroso no livro Eu fui Vermeer – A lenda do falsário que enganou os nazistas. Wynne é jornalista, irlandês e crítico contundente do mercado de arte. Lamenta que os balcões de compras das galerias e grandes leilões sejam freqüentados por compradores mais interessados em nomes do que em obras. É a ciranda financeira desse mercado que permite falsificações como as de Van Meegeren. O mercado, ávido pelo novo e pouco atento ao conteúdo, produz monstros. Até hoje. Esta semana o inglês Damien Hirst subverteu a lógica dos leilões de arte e tapeou sua própria galeria. Foi ele mesmo à Sotheby´s de Londres vender seus trabalhos. Hirst, da mesma geração de Mathew Barney (o marido da Björg), ganhou estatus no mercado quando expôs em galeria uma vaca fatiada, lá pelos anos 1990. Virou nome cobiçado, continuou produzindo obras exatamente no mesmo estilo chocante da vaca e viu seu preço alcançar cifras de Picasso. Assim, não teve problemas em vender um bezerro de ouro e outras 222 obras a US$ 200,7 milhões na casa de leilão londrina. Fez tudo sem a participação da galeria que o representa e levou o lucro sozinho. Quem comprou, comprou antes de qualquer coisa o nome Damien Hirst e o prestígio que vem com ele. E depois, um bezerro de ouro e outras cafonices. É de tais fenômenos que Frank Wynne trata na entrevista abaixo e que o levou a escrever Eu fui Vermeer. Esse post é longo, mas os trechos e a entrevista valem como reflexão sobre esse mercado que faz e desfaz mitos.

 O que mudou no mundo da falsificação desde a época em que Van Meergeren pintou os Vermeers?A primeira coisa que mudou depois da confissão de Van Meegeren foi o número de Vermeer autênticos, que foi drasticamente revisado caindo de 65 para os 35 considerados verdadeiros hoje. Apesar de ser quase certo que Vermeer pintou muitas outras obras (pelo menos 90 foram vendidas logo depois de sua morte), o caso Van Meegeren significou que será quase impossível para num “novo Vermeer”, se descoberto, ser autenticado com segurança. Quando à maneira como os marchands e galerias funcionam, pouca coisa mudou: ainda é raro uma pintura ou obra de arte ser submetida a testes científicos. Grande parte das autenticações ainda repousam na palavra de um ou dois experts. E a falsificação não diminuiu. Há mais fraudadores produzindo mais fraudes nos últimos 40 anos do que em qualquer outro período da história. O que ainda me fascina é isso porque o mercado de arte é inteiramente baseado na confiança. Se o comprador não confiar na opinião do expert fica impossível comprar e vender arte, o que significa que, para se salvar do constangimento e para proteger o vínculo de confiança, marchands e galeristas sempre tomam cuidado de subestimar ou minimizar as fraudes – desse modo fica mais fácil para os falsificadores.

 

 Pode-se dizer que era mais fácil falsificar na época de Van Meegeren?Não. Esse é um erro comum. As pessoas costumam dizer que Van Meegeren conseguiu falsificar com sucesso porque havia a Segunda Guerra e era muito difícil autenticar pinturas na época. Mas não é verdade. Os nazistas tinham centenas de experts à disposição. Há muitos testes disponíveis hoje que não existiam na época, mas a maioria das pinturas não era submetida a testes de análise científica. As últimas duas décadas viram alguns dos mais bem sucedidos falsários da história. John Myatt (na Grã Bretanha) e Geert Jan Jansen (Holanda) ganharam de Van Meegeren e tornaram insignificante sua contribuição de sete falsificações – cada um deles contribuiu com centenas. Keating e Jan Jansen fizeram milhares de falsificações para coleções públicas e privadas antes de serem descobertos. E algumas autenticadas não somente por críticos mas pelos artistas que as teriam pintado.

 

O que o mercado atual de arte contemporânea tem a aprender com o caso Meegeren?O que o mercado de arte deveria ensinar é “compre somente o que você gosta”. Se você realmente ama uma pintura ou escultura, então ela vai te pagar com anos de prazer. Mas o mercado de arte agora (muito mais que nos anos 1940) trata arte como investimento. Se for autêntico e raro, então tem valor. Isso significa que mesmo um Picasso muito ruim (e há vários) valerá sempre mais que o mais magnífico Max Ernst. O que o mercado de arte também deveria ter aprendido é “nunca confie unicamente nos seus instintos”. A não ser (e somente se) uma obra de arte tem todos os documentos traçando o trajeto entre o artista e a galeria. Mas mesmo assim desconfie. De qualquer forma, sempre vemos em um trabalho o que queremos ver. E marchands e galerias podem ficar cegos pela tríade “necessidade, velocidade e ganância”. A necessidade de comprar uma obra de arte feita por um artista, a velocidade, pois assim eles podem comprar antes de qualquer outra pessoa e a ganância porque o preço parece bom.

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1 comentário

Arquivado em Arte

Uma resposta para “A fase que nunca existiu

  1. Li, com muito interesse esse livro, pois ao meu ver essa história da fasificação levanta problemas estéticos de enorme interesse, e fico me perguntando se o que vemos em alguns lugares é o original ou uma cópia.

    JU Gioli

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