Rainha faminta

Execução de Maria Stuart em 1587, autor desconhecido

“Assim como poetas como Rimbaud ou músicos como Mascagni se esvaem completamente em uma obra genial e única, há mulheres que gastam em uma única paixão toda sua reserva de amor ao invés de reparti-la organizadamente pelos anos que lhes restam, coisa que as mulheres de natureza burguesa e moderada fazem muito bem. De uma só vez, essas mulheres, verdadeiros gênios da autodestruição, se jogam nas profundezas da paixão de onde não há volta. Desse tipo de amor que, por não temer perigo nem morte, merece ser chamado heróico, Maria Stuart será um exemplo perfeito, ela que experimentou uma única paixão na vida, à qual se abandonou até o fim, até a aniquilação total de si mesma”

       Maria Stuart era o cão. Foi proclamada rainha da Escócia antes de completar um mês de vida e passou o resto de seus 45 anos armando contra os protestantes e reivindicando a coroa da Inglaterra que repousava sobre a cabeça de sua prima Elisabeth. A Escócia, lá pelos meados do século 16, era assim uma terra de bandidos. A rainha não era das mais ricas e os lordes encarregados de protegê-la viviam em guerra e praticavam com muito esmero a deslealdade e a corrupção. Para completar, Maria Suart, defensora da fé católica, não tolerava ver a Inglaterra governada por uma protestante. O problema é que Maria metia os pés pelas mãos. Adolescente, casou com um rei francês para garantir mais uma coroa, mas perdeu tudo quando o garoto (sim, porque ela era bem mais velha) morreu. Voltou para a Escócia sem a coroa francesa e decidiu que tinha direito à inglesa. Se apaixonou desesperadamente por um moço de espírito fraco e influenciável e tudo desandou.

      Para resumir, Maria mandou matar o marido e casou com o assassino do próprio, uma paixonite irresponsável para uma rainha. Aos olhos das cortes católicas da Europa virou uma desmiolada e aos olhos dos lordes que a protegiam, uma doida. Acabou encarcerada pela prima Elisabeth e, numa última tentativa de conspiração, perdeu o que nunca teve, a própria cabeça, degolada por um facão num tempo em que a guilhotina ainda não facilitava as coisas. Foi tanta conspiração que, ao final, nenhuma corte séria prestava mais atenção aos apelos de Maria para tomar a coroa inglesa. Tanta conspiração que não poderia passar despercebida ao escritor austríaco Stefan Zweig.

      Aficionado por biografias (foram 16 no total), Zweig escreveu Maria Stuart em 1935, dois anos depois de Maria Antonieta. No Brasil, o livro foi publicado nos anos 1940 pela Editora Guanabara e as raras edições que ainda circulam estão em sebos e bibliotecas antigas. Uma pena para os leitores brasileiros. Zweig escolheu biografar duas rainhas de fama bastante complicada. Comete, talvez, o erro do biógrafo e se encanta por suas personagens com bastante sinceridade, mas deixa isso claro e segue pelo caminho de tentar humanizar a imagem construída pela história e pelos vencedores. Maria Antonieta, tal qual a herdeira dos Stuart, foi decapitada. A francesa entrou para a história como e perdulária que desovava a fortuna da coroa francesa nos ateliês de estilistas e cabeleireiros. A escocesa conquistou seu lugar como a louca conspiradora que se apaixonava pelos homens errados e nunca daria sua vida pelo povo, o mínimo que uma rainha podia fazer naqueles tempos. Duas injustiçadas pela história na visão de Zweig. Claro, com um crédito para Antonieta, figura intelectualmente muito mais interessante que sua xará da Escócia.

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1 comentário

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Uma resposta para “Rainha faminta

  1. Sérgio Maggio

    Adorei esse quarto, quase dormi aqui de tão bacana. Passa no Cricri que fiz um comments daqui. Bjs

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