A cegueira

 “Porém, cada coisa chegará no tempo próprio, não é por muito ter madrugado que se há-de morer mais cedo. Os cegos da terceira camarata lado esquerdo são pessoas organizadas, já decidiram que vão começar pelo que têm de mais perto, pelas mulheres das camaratas da sua ala. A aplicação do método rotativo, palavra mais do que justa, apresenta todas as vantagens e nenhum inconveniente, em primeiro lugar, porque permitirá saber, em qualquer momento, o que foi feito e o que está por fazer, é como olhar um relógio e dizer do dia que passa, Vivi desde aqui até aqui, falta-me tanto ou tão pouco, em segundo lugar, porque quando a volta das camaratas estiver concluída, o regresso ao princípio trará uma indiscutível aragem de novidade, sobretudo para os de memória sensorial mais curta. Folguem portanto as mulheres das camaratas da ala direita, com o mal das minhas vizinhas posso eu bem, palavras que nenhuma disse, mas que todas pensaram, na verdade ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra.”

      São linhas como as três últimas que fazem a leitura do livro de Saramago ser bem mais impressionante que a adaptação de Fernando Meireles para o cinema. As palavras de Ensaio sobre a cegueira, o livro, são mais sórdidas e descrentes que as imagens de Meireles. Só para ensaiar uma comparação, porque comparar linguagens tão distantes quanto a literária e a cinematográfica raramente resulta em sentenças sensatas. O problema é que no caso de Ensaio sobre a cegueira, o roteiro do filme é literalmente o livro. E quando se lê o livro após assistir o filme, fica difícil não casar as imagens evocadas pelas palavras do autor com as propostas pelo diretor. Mas o grande barato aqui é encontrar a narração de Saramago e sua viagem pela psicologia dos personagens. O egoísmo é a marca comum a todos os personagens, até mesmo à mulher do médico (ninguém tem nome no livro), a única capaz de enxergar após a cegueira atingir, inexplicavelmente, todos os humanos do planeta. Quando ninguém vê, tudo é permitido. E assim, no cenário criado pelo Nobel português, o ser humano vai se esvaindo no próprio egoísmo. Há eventuais lampejos de esperança. Há os malvados e não-malvados e todos podem escolher de lado querem ficar. O livre arbítrio existe, mas as decisões raramente são pautadas pela idéia de uma organização que depende da coletividade. Os não-malvados se escoram na mulher que enxerga, que hesita em contar que enxerga para não ficar sobrecarregada. Os malvados, obviamente, exercem sua maldade partindo do pressuposto de que suas fraquezas são as mesmas de toda a humanidade. Ironicamente e tarde demais, descobrem que existe entre os outros alguém que não compartilha da cegueira. Um erro de cálculo fatal para a maldade humana. Até os cães, na mundo cego de Saramago, podem ser egoístas, qualidade, não custa lembrar, exclusivamente reservada ao mundo dos homens.

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2 Comentários

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2 Respostas para “A cegueira

  1. Tiago

    Belo texto. Melhor do que muita crítica que li sobre o filme.

  2. Ponto Atopos

    JU Gioli

    adorei a sua reflexão. Assisti o filme estes dias, apesar de ter lido alguns anos atrás, e gostei de ambos.

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