Luz em novembro

turner

 Imagem: The great western railway, de William Turner

 A memória acredita antes de o conhecimento lembrar. Acredita um tempo maior do que recorda, um tempo maior até do que o conhecimento imagina. Conhece lembra acredita em um corredor num longo frio despojado ressonante edifício de tijolos vermelhos escuros enegrecidos pela fuligem de mais chaminés do que a sua própria, plantado num terreno atulhado de cinza espalhada sem grama rodeado de construções industriais fumacentas e cercado por uma cerca de aço e arame de três metros como uma penitenciária ou um zoológico, onde em vagas erráticas aleatórias, com chilreios infantis pardalinos, órfãos em idêntica e uniforme sarja azul dentro e for a da recordação mas no conhecimento constantes como as paredes soturnas, as janelas soturnas onde na chuva a fuligem das chaminés adjacentes de um ano riscava como lágrimas negras.

      Difícil não sucumbir a William Faulkner. Luz em agosto, como vários romances do americano, conta histórias dos Estados Unidos profundo da década de 1920, época em que um negro não tinha autorização para entrar em qualquer lugar e que um protestantismo conservador exercia sua autoridade num raio muito maior que o da comunidade local. Uma mocinha grávida solteira, um velho serralheiro, um pastor e um mestiço filho de negro com branco são alvo da narrativa visceral de Faulkner, cujo mergulho na psicologia dos personagens pode levar o leitor a um abismo do qual não é fácil voltar. Não há linearidade no romance. Cada capítulo tem seu personagem, as histórias vão e voltam e é quando nos deixamos levar por esses cortes que podemos realmente penetrar no universo do escritor. E, na maioria das vezes, não é um universo de seres iluminados, embora Faulkner seja generoso o suficiente para fazer destes seres figuras muito humanas. O escritor nasceu no Mississippi e a cultura do sul sempre foi uma grande influência. Ler Luz em agosto no século 21 causa um deslocamento no tempo ainda maior que os cortes da própria narrativa. Em 1932, ano de publicação do romance, seria impossível imaginar um negro no comando do país.

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