A psicologia de Gould

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Talvez Gould fosse simplesmente um desses seres que não gostam que as coisas terminem, que olham o dia declinando como uma ameaça da qual fogem em uma sala de cinema, desejam as músicas não concluídas, freqüentam compositores for a de moda, escutam os latecomers (retardatários) do mundo, como os de Terra Nova, que chegaram quando nada maios acontecia para ali ficar para sempre, sem outro projeto que o de simplesmente durar, alongam suas frases, inextricável emaranhado, de incidentes em digressões, até que seja o ouvinte esgotado que perca o fio…

 A lição de Gould é uma lição de humildade. Há pianistas que prefiro: Lipatti, Richter, Sofronitzki. Guilels toca melhor que Gould o Dramatico da Sonata nº 3 de Scriabin, e Arrau o Concerto do Emperador, apesar da ciência sutil da desordem mental que Gloud demonstra, e sua maneira desconcertante de tocar os concertos.

Uma obra chega até nós sempre recoberta por camadas de gestos interpretativos, ou vestidas do vestido rígido da tradição. É preciso desnudá-la. Mas o iconoclasta não é aquele que estilhaça imagens para se distrair e gozar do belo desastre de seus pedaços esparsos. Ele quer que nada, e sobretudo não a imagem, o afaste de seu endereço divino.

Gould não era um surrealista com o mal da provocação, mas uma espécie de cátaro da música. Seu retiro foi um conseqüência com essa constatação: as salas não são o melhor lugar para escutar música, por causa da presença das imagens, e da ausência da solidão que elas implicam. O concerto lhe parecia imoral, porque a música, como Deus, não sofre da representação.

 

Glenn Gould – Piano solo, do psicanalista francês Michel Schneider, não é uma biografia comum. O autor não se amarra a cronologias ou documentos e dispensa o apego aos fatos. É um retrato muito pessoal e subjetivo de Schneider para um dos maiores pianistas do século 20. É para ouvir ao som da gravação de O cravo bem temperado, em que Gould solfeja ao fundo sua inevitável cantilena, sinal de que não gostava do piano, terror dos técnicos de som dos estúdios, brinde mítico para os aficcionados pelo canadense. Assim friamente, a vida de Gould dificilmente renderia uma biografia. Personagem avesso ao contato social, decidiu se retirar das salas de concerto muito cedo. Preferia o estúdio, no qual podia controlar todos os detalhes das gravações. Não gostava de gente por perto, se isolou inúmeras vezes no norte do Canadá, tinha fobia de contato físico por achar que pegaria doenças, calçava as mãos com luvas para se proteger e encenava verdadeiros rituais de relaxamento dos braços em água quente antes das gravações. Da vida amorosa, pouco ou nada se sabe. Mas Gould era figura extraordinária e o retrato de Schneider não se perde em detalhes dispensáveis. Depois de identificado como o maior intérprete de Bach, ainda no início da carreira, Gould decidiu que a música ao vivo afastava o público ao invés de capturá-lo. Se retirou dos palcos e escolheu os estúdios de gravação como lugar seguro para a música. Ali podia controlar cada nota de seu dedilhado. Mas nada disso ganha destaque desmesurado no texto de Schneider, que prefere mergulhar na sua versão psicológica de Gould, pessoa que não conheceu mas da qual confessa sentir saudades. O autor também biografou, a seu modo, Baudelaire e Marilyn Monroe, mas apenas este último foi traduzido para o português.

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1 comentário

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Uma resposta para “A psicologia de Gould

  1. Grazi

    Querida,

    Você está escrevendo cada vez melhor! Gosto muito das suas impressões sobre cada livro e viajo nas suas palavras. Obrigada!
    Beijos.

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