Fragmentos de um refugiado

bosnia

 Arrumei minhas malas e me despedi de Will – havia lágrimas de verdade em seus olhos ao dizer: – Eu sei que seu velho vai focar bem. – tomei o trem noturno para Varsóvia e voei para Chicago, via Frankfurt, envolto numa dor surda, meus pesadelos, que eram minha única diversão, repletos de remorso. O enterro foi no dia da minha chegada – ele morreu quando eu estava na loja duty-free do Aeroporto de Frankfurt, comprando carinhosamente algumas garrafas de vodca Absolut para serem consumidas durante o velório. Vindo diretamente do aeroporto, me sentei na primeira fila da funerária Muzyka com minha mãe, que soluçava e tremia, vestida de preto fechado, enquanto meu pai jazia num caixão aberto e seus companheiros de guerra – velhos em ternos de cores inexpressivas cada vez mais apertados neles, exalando um fedor de próstatas carcomidas – seguravam bandeiras ucranianas e discursavam sobre a lealdade e a generosidade de meu pai, sobre seu amor pela Ucrânia, sobre seus últimos instantes de sublima alegria ao ver a pátria livre.

O trecho acima contém os indícios necessários para compreender a vida de Pronek, um bósnio filho de ucraniano que cresceu em Sarajevo e acaba exilado nos Estados Unidos por conta da guerra que opôs bósnios, sérvios e croatas. Pronek não esmiuça detalhes mórbidos do conflito que deixou 250 mil mortos e 1,5 milhão de refugiados. O personagem criado pelo escritor bósnio Aleksandar Hemon para o romance As fantasias de Pronek é um bem humorado viajante que recorre a fragmentos de lembranças para contar sua história de refugiado. Hemon não nega as referências autobiográficas do romance. Ele mesmo deixou a Bósnia natal em 1992, quando realizava um intercâmbio nos Estados Unidos e foi impedido de voltar para casa devido ao conflito. Acabou ficando em Chicago, de onde escrevia matérias para jornais bósnios, tarefa que perdeu o sentido quando a guerra tomou proporções dramáticas. O escritor decidiu então escrever primeiro contos, depois romances. Tinha 28 anos e também decidiu que escreveria em inglês, embora as aulas do idioma na faculdade em Sarajevo não fossem o suficiente para dar início à carreira de escritor. Mas Hemon deu conta e ganhou prêmio. Para dar ênfase à fragmentação da memória de Pronek, o autor decidiu narrar o livro a partir de vários pontos de vista. Cada momento da vida do personagem é contado por um narrador diferente, o que confere ao livro uma dinâmica curiosa e tão entrecortada quanto a vida de refugiado.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Fragmentos de um refugiado

  1. uau,,, memória fragmentada e viva de Sarajevo.

  2. adorei a ideia do blog: uma foto (devidamente creditada), um trecho, um comentário seu. ficou sensacional. cheguei aqui via leandro wirz, resolvi ficar por conta própria e acompanhar. parachoques, como dizia, tom de troça, na infância.

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