A farsa?

Obra de Damien Hirst: um tubarão conservado em formol

Foto: Stephen Foster

“Mesmo assim, pessoas razoavelmente cultas ainda não fazem distinção entre arte moderna e contemporânea, nem suspeitam que as relações entre o artista, o mercado e as instituições mudaram radicalmente. É bem provável que um cidadão comum, de cultura mediana, continue associando arte à capacidade de exprimir e significar, dois verbos que caíram em desuso.
Isso acontece, em parte , porque o espectador comum deixou de ter importância para o sistema, ou melhor: da mesma forma que a função da crítica foi anulada pelos gestores do mundo da arte — o crítico só serve hoje para testemunhar, não para julgar — o papel do cidadão também foi reduzido ou mesmo eliminado.
Ao crítico, cabe hoje chancelar teoricamente a obra que é designada como arte pelo sistema, num servilismo patético. Como, na verdade, o crítico nada mais era do que um espectador esclarecido, informado, qualificado para julgar esteticamente a obra, o que naturalmente tinha impacto na carreira e na cotação do artista, o mesmo movimento que tira de cena o crítico independente dispensa o espectador com opinião: ao público resta apenas aceitar e consumir passivamente os signos daquilo que lhe é vendido como arte.
(…) Coroando muitas vezes a ação entre amigos que se tornou a arte, o Estado também dá sua forcinha, pagando viagens a feiras comerciais e delegando aos departamentos de marketing das grandes corporações privadas, via leis de renúncia fiscal, a função de decidir em que tipo de arte merece ser investido o dinheiro público.
O paradigma moderno se caracteriza por essa conspiração harmoniosa, pela unanimidade e pela autorreferência.”

Até o século passado, as vanguardas artísticas costumavam nascer de ruprturas e movimentos de contestação. O impressionismo foi sistematicamente rejeitado nos grandes salões. A arte acadêmica era a preferência oficial. O cubismo rompeu as formas clássicas de representação do real e a arte conceitual de Marcel Duchamp queria contestar o sistema vigente. O urinol alçado à categoria de objeto de arte era uma provocação e um estímulo à reflexão sobre o papel do artista e da própria arte na sociedade, naquela época e naquele contexto. A apropriação de Duchamp aconteceu nos anos 1910. O que Luciano Trigo procura escarafunchar em A grande feira, como mostra o trecho acima, é como a arte contemporânea se dissociou dos valores de ruptura que marcaram as vanguardas artísticas em todo o planeta e se associou ao sistema oficial para ganhar legitimidade e mercado. Trigo, que é jornalista e tradutor, se diz movido por uma curiosidade jornalística. Fez um livro corajoso. Há muitos porquês em A grande feira. Hoje, o autor defende, o maior sonho de qualquer artista é ser absorvido pelo sistema. Para isso basta que entre para um círculo, uma teia de contatos e relações que nada tem a ver com a qualidade ou conteúdo de sua produção. A crítica não questiona, apenas endossa. E a curadoria, de tão autoral, está à beira de virar artista também. Trigo é radical. Exemplifica com exemplos realmente muito bons. Vai buscar na Inglaterra o fenômeno Damien Hirst para mostrar como se fabrica um artista contemporâneo. É sabido de todo o mundo da arte que Hirst nasceu porque o empresário e colecionador Charles Saatchi assim o quis. Multimilionário, Saatchi conseguiu montar uma rede que incluía mídia, colecionadores, crítica, museus e um grande prêmio de arte — nada mais que o Turner Prize — para sustentar o que chamou de Young British Art. Com todos na mão, conferiu  prêmio  e valor a Hirst, que não costuma trabalhar nas próprias obras, é autor apenas das ideias. Aí está um dos pontos mais interessantes do livro. Quanto vale uma ideia? Quanto vale um quadro de Damien Hirst pintado por uma artista anônima de sua equipe? O que se paga, na realidade? Uma grife? Um certificado? É um caso muito específico, mas Trigo consegue, a partir dele, expor um cenário bastante comum.É verdade que Hisrt se torna uma figura um tanto repetitiva em A grande feira. E que o autor se mantém seguro atrás de exemplos estrangeiros e não encara o cenário nacional. Uma menção a Tunga e outra à Arco 2008,  quando o governo brasileiro investiu R$ 2,6 milhões para levar galerias brasileiras a Madri, são as únicas críticas ao mundo da arte no Brasil. E também não se pode deixar de reparar um pouquinho de conservadorismo em certas posturas.  Mas vale a leitura.

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1 comentário

Arquivado em Arte, Ensaios

Uma resposta para “A farsa?

  1. Regina bressan

    Esse texto é um alívio para uma pessoa como eu. Não sou entendida em arte, quanto mais contemporânea, mas quando era pequena, costumava abrir um livro de arte que tínhamos em casa. Passava horas admirando as cores, a luz, as pinceladas caóticas, mas precisas do impressionismo. Via tudo isso mais com os olhos do que com o conhecimento. Pensava que as pessoas que faziam aquelas pinturas deveriam ser pessoas especiais, verdadeiros gênios. Tentava entender como era possível importar o sol e sombra para dentro de um pedaço de tecido como nas telas de Caravaggio. Meu espírito infantil desprovido de qualquer sentido estético pré-concebido se debruçava sobre os traços e as feições. Esse mundo que construí dentro do meu imaginário, foi sendo desconstruído dando lugar à mais pura perplexidade a medida que o tempo ia passando. Cada movimento artístico que surgiu, era como foi dito, uma ruptura de uma linha de pensamento. Esse movimento criativo, que bagunçava nosso espírito para criar algo totalmente novo, se perdeu dando lugar a bizarrices que eu não consigo entender. Talvez me falte conhecimento ou desconhecimento de algum elo perdido. Ainda na infância, embora não soubesse dar nome aos bois, eu sabia exatamente que algumas telas, do único livro de arte que tínhamos em casa, eram diferentes de outras, mas eu podia coloca-las em categorias mentais, que muito tempo depois soube que tinham um nome e que estavam ligadas a movimentos históricos da sociedade. A cada rompimento era como se uma pedra fosse jogada em um lago, provocando certa perturbação na superfície necessária para oxigenação deste. Hoje, a arte contemporânea parece-me mais um turbilhão desconexo difícil de identificar a fonte, o epicentro da corrente criativa que deu origem ao movimento. Acho tudo uma grande bobagem, e muitas vezes quando tento expressar nos meios acadêmicos meu pensar, as pessoas me olham como se eu de nada entendesse. Talvez eu não entenda! Lendo o seu texto, no entanto, me senti menos inadequada em um mundo onde quebrar paradigmas é fotografar alguém fazendo suas necessidades ou colocar animais em formol. Eu definitivamente, não pertenço a este lugar!

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