Arquivo da categoria: Romance

Estrada econômica

trevor-manternachFoto: Trevor Manternach

“Vasculhavam as ruínas carbonizadas de casas em que não teriam entrado antes. Um cadáver flutuando na água preta de um porão entre lixo e canos enferrujados. Estava numa sala de estar parcialmente queimada e aberta para o céu. As tábuas empenadas por causa da água inclinadas sobre o quintal. Livros ensopados numa estante. Apanhou um e abriu-o e colocou-o de volta. Tudo úmido. Apodrecendo. Numa gaveta encontrou uma vela. Não havia como acendê-la. Colocou-a no bolso. Caminhou para luz cinzenta lá fora e ficou parado de pé e viu por um breve momento a verdade absoluta do mundo. As voltas frias e incansáveis da terra morta e abandonada. Escuridão implacável. Os cães cegos do sol em sua corrida. O vácuo preto e esmagador do universo. E em algum lugar dos animais caçados tremendo como marmotas em seu abrigo. Tempo usurpado e mundo usurpado e olhos usurpados com os quais lamentá-lo.”

 É um risco descrever o enredo de A estrada, de Cormac McCarthy, sem que lembre o resumo de um filme apocalíptico de Hollywood. Tão arriscado quanto perigoso, porque se tem uma coisa que McCarthy não faz é investir em tom hollywoodiano, cheio de explicações para o inexplicável e de imagens excessivas para o inimaginável. E é nesses antônimos que A estrada se encaixa. Correndo o risco: pai e filho caminham por uma estrada num mundo devastado. Algo aconteceu e não sabemos o que foi. Restaram apenas cinzas, que cobrem o solo e ficam suspensas no ar. Sim, há coisas animalescas acontecendo ao redor. Canibalismo para sobreviver num planeta queimado e sem comida, escuridão permanente, ausência de humanidade como ainda conhecemos. Mas é na relação entre pai e filho, ambos sem nome, que McCarthy foca a narrativa. Antes de morrer, a mãe avisou o marido que o garoto era a única distância entre ele e a morte. É no apego a esse fio que a caminhada faz sentido. Eles não sabem para onde vão, nem o que buscam, mas o fato de continuarem buscando faz com que pareçam os únicos seres ainda humanos no cenário. E McCarthy não combina com Hollywood porque é simples, cru, direto no que quer explícito e econômico no que poderia tomar ares de espetáculo. Deixa ao leitor a liberdade de perceber (ou não) o horror da situação, mas nunca se aventura em descrevê-la e transformar A estrada em voyeurismo mórbido. Os diálogos curtos ajudam a velar e revelar. O livro, publicado em 2006, é a única ficção científica do autor, que escreveu também Onde os velhos não têm vez, origem do filme Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen. A estrada está a caminho em filme, mas não pelas mãos dos Coen, infelizmente.

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Umidade literária

 

Foto: Brisolara

“Eu, que vivo no gasômetro, tenho tomado distância de tudo o que é sólido. À margem das formas, sou reservatório de coisas desfeitas. É meu rosto líquido que vejo na poça de chuva esquecida pela terra sob minha janela, rosto de quem quis infinitamente comprimir os fluidos da vida na esperança de guardá-la. No gasômetro as coisas não são sólidas, mas custam a passar. Hoje um grito de criança, sumido da varanda em meu passado, veio vibrar sobre o telhado como o canto de uma ave vindo agonizar no ninho antes de morrer; ontem, foi um pardal que desceu na água.”

 Satolep (CosacNaify) é o segundo livro do gaúcho Vitor Ramil, mais conhecido pela música do que pela literatura. Assim como as composições escritas por Ramil, seu romance evoca o sul. Satolep é uma cidade perdida no meio da umidade intensa típica do extremo sul do Brasil. O clima tem sua importância na narrativa de Ramil. O tempo, a neblina, o sol e a cerração atuam de forma definitiva nos personagens. Ramil não dá nome ao protagonista, mas dá a este uma história misteriosa. A figura desembarca em Satolep em busca da própria alma perdida na adolescência, quando trocou a cidade natal por uma metrópole qualquer. As referências autobiográficas são evidentes e o autor não as evita. Tal qual seu protagonista, Ramil deixou sua Pelotas natal na adolescência rumo a Porto Alegre. Voltou, coincidentemente, com a mesma idade do personagem. E Satolep é Pelotas lida de trás pra frente. Ramil começou a escrever o livro depois de se encantar com fotografias da cidade feitas na década de 1920. Para cada imagem escrevia um texto, até que deu liga e do exercício saiu um romance. Parte das fotos antigas foram extraídas do álbum para ilustrar o livro. Levam a assinatura de Brisolara, um fotógrafo cuja história ninguém sabe ao certo. Abaixo, Ramil fala sobre Satolep.

 “Nasci em Pelotas e saí com 17 anos. Fui para Porto Alegre e, cinco anos depois, para o Rio. Depois voltei para cá (Pelotas) não saí mais. Estava começando a escrever meu primeiro romance, tinha feito o disco Ramilnonga e era um grande risco voltar para o interior, mas foi a coisa mais acertada que fiz.”

“Eu tinha comigo um álbum de Pelotas feito em 1922 e um dia resolvi escrever para as fotos uma pequena ficção e passei a escrever para várias fotos. E uma das pequenas histórias cresceu e foi aos poucos transformada em romance.”

“Não há no livro uma intenção consciente de contar minha história, minha volta (a Pelotas). Quando me dei conta que tinha voltado para cá com a idade do meu personagem já estava com livro na metade. Talvez o que tenha de meu são algumas questões bem pontuais e alguns comentários sobre música e estética do frio.”

“Tem uma questão que acabo usando que é o João Simões Lopes Neto como espécie de mestre do meu personagem. Leitor nunca sabe o nome dele porque é um livro sobre a complexidade de saber quem a gente é, como lidar com isso, como lidar com a formação da gente na família, na sociedade.”

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Um romance para Biafra

Foto: C. Carwile

“Quando o Patrão voltou para casa, Ugwu estava sentado no chão da sala, com as costas na parede. Olanna comia uma fatia de bolo, num pires. Ainda estava com o vestido de noiva; a camisa de Okeoma for a bem dobrada e estava sobre uma poltrona. Os convidados haviam saído devagar, dizendo pouca coisa, as fisionomias sombreadas de culpa, como se constrangidos de terem deixado o reide aéreo arruinar o casamento.”

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu na Nigéria, é de etnia igbo e perdeu os avós na guerra de Biafra. Mora nos Estados Unidos desde a adolescência e foi lá que escreveu Meio sol amarelo (Companhia das Letras), publicado em 2006 nos países de língua inglesa e este ano por aqui. O romance segue a história de uma família de classe média durante a guerra que dividiu a Nigéria e instituiu a República de Biafra. Entre 1967 e 1970, milhares de igbos fugiram do território nigeriano e se instalaram em Biafra, que nunca foi reconhecida pelas grandes potências e amargou uma fome cujas imagens invadiram o mundo. A figura central do romance de Chimamanda é Ugwu, um menino pobre contratado por um professor universitário para cuidar dos afazeres domésticos. Meio sol amarelo fala das mazelas da África e suas guerras tribais, embora não seja este o foco de Chimamanda. A autora quer mostrar que há uma África além da propaganda do hemisfério norte, além das fotografias em preto e branco que ganham prêmios e dos relatos do repórter belga da CNN. Em Meio sol amarelo, duas irmãs gêmeas de família rica resolvem ficar em Biafra quando a guerra estoura. Os desastres das batalhas estão no livro, mas Chimamanda não faz sensacionalismo. O conflito de seus personagens está em manter a sanidade e uma certa moral em meio à degradação. E, sobretudo, a identidade. Vale como relato histórico. A autora tem 31 anos e não viveu a guerra, mas se ancorou nas narrativas da família e de amigos para construir Meio sol amarelo, um bom exemplar de literatura da África não-lusófona. Em julho último Chimamanda participou da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Teve como companhia no palco da festa os angolanos Pepetela e José Eduardo Agualusa e contou ao público que não acredita na missão política do escritor, embora não possa deixar de enxergar seus livros como romances fatalmente políticos. A autora escreveu também Purple hibiscus, inédito no Brasil, e agora participa de um livro para comemorar os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A publicação terá textos de 12 autores, gente como Gabriel Garcia Marquez , Naguib Mahfouz (morto em 2006) e José Saramago. A foto acima é de Enugu, capital do estado de Enugu.

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A compulsão…

De tudo que a faculdade me deu, apenas de uma coisa eu gostava sem crise: comprar livros. Mesmo quando não fosse lê-los, gostava de comprá-los. Não sabia bem por quê. Um dos meus programas preferidos era ir ao centro da cidade visitar os sebos, beijar as boquinhas de livros usados, e comprá-los. Comprava um monte de cada vez. Muitos eu acabaria guardando intocados, mas tudo bem. Era uma compulsão, eu não lutava contra. Sabia que era besteira, mas não conseguia, nem queria, evitar. Ou me encantava a idéia de como seira bom ter lido tal livro, ou pensava que ele ainda podia ser útil no futuro.”

O trecho está na página 42 de O fazedor de velhos, último livro de Rodrigo Lacerda. A história: um adolescente envelhece uns bons anos depois de carregar um volume com as obras completas de Shakespeare debaixo do braço. Bem, não envelhece propriamente, mas Shakespeare faz parte de um disfarce que ajuda o moço. Vale conferir.

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